Pedágio sem cancela era promessa no Brasil, mas ainda precisa passar pelo teste da cobrança.
A tecnologia de free flow, que prevê a cobrança automática de pedágios por meio de câmeras e sensores instalados em pórticos, chegou ao Brasil há cerca de um ano, mas ainda ocupa apenas uma fração mínima das rodovias do país. Atualmente, cerca de 70 pórticos estão em operação em sete estados do Sudeste. A princípio, esse modelo de cobrança prometia modernizar as estradas, reduzir custos para as concessionárias e aumentar o mercado de tags, aqueles adesivos que precisam ser fixados no vidro da frente dos carros. Em troca, as pessoas tinham de pagar mais. Entretanto, a realidade é que muitos motoristas sequer sabiam que deveriam pagar, e a tecnologia chegou antes da prática.
Desde março de 2023, quando o sistema de pagamento começou a operar, ele avançou pouco e acumulou milhões de reais em multas. O governo foi obrigado a ajustar a rota e a agência responsável por regular o setor passou a permitir que as concessionárias solicitem a conversão de estruturas existentes para o modelo de free flow. A nova resolução permitirá que as concessionárias solicitem formalmente a conversão de estruturas existentes para o modelo de free flow. Isso deve permitir que até 80% das praças de pedágios sejam convertidas até 2035.
A conversão das mais de mil praças existentes, porém, não é automática. A agência tem 60 dias para avaliar cada pedido e pode rejeitá-lo se não houver vantagem tarifária para o usuário. Além disso, os contratos de concessão têm prazo de 30 anos e regras rígidas, e mudar o formato de cobrança exige renegociar acordos e, muitas vezes, envolve municípios que recebem parte da arrecadação via ISS, o Imposto sobre Serviços. O modelo de free flow tem sido considerado como uma alavanca financeira para as concessionárias, pois é quase cinco vezes mais barato instalar pórticos eletrônicos do que erguer uma praça tradicional, eliminando desapropriação, cabines e logística de dinheiro.
As resistências ao modelo têm sido significativas, tanto entre os motoristas quanto entre as concessionárias. Em São Paulo, por exemplo, o governo estadual decidiu que a cobrança em pórticos na Raposo Tavares e em outras rodovias da Rota Sorocabana só começará em 2027, após três adiamentos. O caso mais emblemático veio das multas, que foram um dos principais problemas enfrentados pelo modelo. Em abril, o governo federal suspendeu a cobrança de multas em uma série de rodovias.


